Por que é tão difícil falar sobre algumas coisas?

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Existem assuntos que ficam guardados por muito tempo. Uma lembrança, um sentimento, uma situação que a pessoa carrega sozinha e que, mesmo diante de alguém de confiança, parece não caber em palavras. Se isso já aconteceu com você, saiba que não é falta de coragem nem de vontade de falar. Falar de certas coisas é, de fato, difícil, e muitas vezes há razões para isso.
Neste artigo, apresento quatro fatores que costumam estar por trás desse silêncio: a vergonha, o medo de julgamento, a insegurança e o tempo que cada pessoa precisa para chegar a determinados assuntos.
A vergonha: quando a experiência parece algo a esconder
A vergonha é diferente da culpa. Enquanto a culpa costuma estar ligada a algo que fizemos, a vergonha toca em quem somos: "se alguém souber disso, vai ver algo errado em mim". Por isso ela é tão silenciosa. Quem sente vergonha tende a se afastar, a minimizar ou a mudar de assunto, justamente para não ser visto.
Muitas vezes, essa vergonha foi aprendida cedo, em ambientes em que certos sentimentos, desejos ou vivências não podiam ser ditos. Com o tempo, a pessoa passa a acreditar que aquilo deve mesmo ficar escondido.
O medo de julgamento: "o que vão pensar de mim?"
Falar de algo íntimo é se expor à reação do outro. O medo de ser criticado, corrigido, desacreditado ou abandonado faz com que muita gente prefira o silêncio. É uma forma de proteção, e já teve sua função na história de cada um.
Esse medo pode aparecer até mesmo diante de um profissional. Não é raro alguém chegar à terapia se perguntando o que a psicóloga vai pensar, se vai se chocar ou se vai achar exagero. Tudo isso pode ser dito, inclusive esse receio.
A insegurança: "será que isso merece espaço?"
Outra barreira frequente é a dúvida sobre a própria importância do que se sente. Frases como "é só besteira", "tem gente com problemas piores" ou "eu devia estar bem" fazem a pessoa desqualificar a própria experiência antes mesmo de falar dela.
Na clínica, essa insegurança aparece de muitas formas: em quem pede desculpas por ocupar o tempo da sessão, em quem fala rapidamente de algo importante e logo muda de tema, em quem diz que "não sabe por onde começar". Nada disso é obstáculo para o trabalho. É material para ele.
O tempo: por que alguns assuntos levam meses
Há temas que só ganham palavras depois de muito tempo, e isso não significa resistência no sentido pejorativo. Falar exige que a pessoa tenha construído algum grau de segurança com quem escuta. Essa confiança não se decreta: ela se forma aos poucos, a cada encontro em que a pessoa percebe que pode dizer sem ser interrompida, avaliada ou apressada.
A psicanálise reconhece esse movimento desde Freud, que propôs a associação livre como método: a pessoa é convidada a dizer o que lhe vier à mente, sem a obrigação de organizar ou selecionar, e o que é mais difícil de ser dito pode surgir no seu próprio tempo. Winnicott, por sua vez, falava da importância de um ambiente suficientemente seguro para que alguém possa se mostrar de forma mais genuína. Em outras palavras, a segurança vem antes da palavra.
O que isso significa para quem pensa em começar a terapia
Você não precisa começar pelo que é mais difícil. Pode começar pelo que está mais presente hoje ou por alguma lembrança do passado que faça sentido compartilhar neste momento.
Você não precisa ter tudo claro. Um incômodo sem nome já é um ponto de partida.
Você pode silenciar, hesitar e voltar atrás. Isso também comunica.
Não existe prazo para contar. O que ainda não cabe em palavras pode surgir depois, no seu ritmo.
Como acolho esse processo no consultório
Em meu trabalho, orientado pela psicoterapia de base psicanalítica, procuro oferecer um espaço de escuta atenta, sigilosa e sem julgamentos. Não há pressa para que a pessoa diga o que ainda não consegue dizer. O vínculo vai sendo construído sessão a sessão, e é dentro dele que os assuntos mais difíceis podem, aos poucos, encontrar espaço para serem pensados.
Quando procurar ajuda
Se há algo que você carrega há muito tempo e gostaria de poder falar, ou se percebe que o silêncio tem pesado, conversar com um profissional pode ser um caminho. Em situações de sofrimento intenso ou pensamentos de se machucar, procure ajuda imediatamente: o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e em emergências o SAMU atende pelo 192.
Agende uma conversa inicial através do meu WhatsApp.
Atendimento psicológico presencial em Gravataí/RS e psicoterapia online para pessoas em qualquer lugar do Brasil e do mundo, com uma escuta ética, individualizada e orientada pela psicanálise.
Para saber mais
FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912).
WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação (1965).
Sobre a autora
Graziela Barbosa Terra é psicóloga (CRP 07/44514) e especializanda em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica. Atende crianças, adolescentes e adultos.
Este artigo tem caráter informativo e educativo. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento psicológico individual.




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