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É possível fazer terapia online e ter resultados?

  • Foto do escritor: Graziela Barbosa
    Graziela Barbosa
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura
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Por Graziela Barbosa Terra, psicóloga, especializanda em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica. CRP 07/44514.


Quando o consultório presencial deixou de ser a única possibilidade de atendimento, muita gente, pacientes e até colegas de profissão, passou a se perguntar: dá para fazer análise pela tela e ainda assim ter resultado de verdade?


A pergunta é legítima e, como psicóloga que atende tanto presencial quanto online, posso dizer que a resposta não é um "sim" simples nem um "não" categórico. É preciso entender o que sustenta um processo analítico para responder com honestidade.


Neste artigo, vou explicar, a partir da teoria psicanalítica e da minha experiência clínica, o que realmente importa para que a terapia online funcione e em que situações ela pode não ser a melhor escolha.


O que sustenta um processo psicanalítico, afinal?


Antes de falar sobre a tela, vale lembrar do que é feito um processo de análise. Freud já apontava que a cura, quando acontece, não é fruto de conselhos ou técnicas aplicadas de fora para dentro, mas de um processo de elaboração que se desenrola na relação entre analista e analisando.


O que sustenta esse processo são, essencialmente, três elementos:


  • A transferência: o modo como o paciente revive, na relação com o analista, padrões afetivos antigos, muitas vezes inconscientes.


  • A associação livre: a possibilidade de falar sem censura prévia, deixando emergir aquilo que insiste em não ser dito diretamente.


  • A escuta flutuante do analista: uma atenção que não julga nem dirige, mas acolhe o que emerge nas entrelinhas da fala.


Nenhum desses três elementos depende, estritamente, de os dois corpos estarem na mesma sala. Eles dependem de um enquadre, o chamado setting analítico, composto por horário fixo, honorários combinados, sigilo, regularidade e um espaço simbólico de escuta.


A tela pode, sim, sustentar esse enquadre, desde que ele seja construído com o mesmo rigor de um consultório físico.


O que a pesquisa e a prática clínica mostram


Diversos estudos publicados nos últimos anos em periódicos de psicologia clínica têm comparado desfechos terapêuticos entre atendimento presencial e por vídeo, incluindo abordagens psicodinâmicas.


De forma geral, esses estudos apontam equivalência de eficácia entre as duas modalidades para a maior parte dos quadros clínicos, quando a aliança terapêutica é bem estabelecida.



Dito isso, é importante ter honestidade clínica. A modalidade online não é neutra. Ela introduz variáveis que precisam ser pensadas caso a caso.


  • A ausência do corpo inteiro em cena. Parte da comunicação não verbal, como postura, respiração e o silêncio que se instala fisicamente na sala, se perde ou se transforma na tela. Isso não inviabiliza a escuta, mas exige do analista uma atenção redobrada a outros sinais, como o tom de voz, as pausas e até o ambiente que o paciente escolhe mostrar, ou esconder, na câmera.


  • O espaço do paciente entra em cena. Atender de casa, do quarto, às vezes escondido de outras pessoas, traz elementos novos para a análise, que podem, inclusive, se tornar um rico material clínico, e não apenas um obstáculo.


  • Casos de maior gravidade psíquica, como quadros psicóticos agudos, risco de suicídio ativo ou situações que exigem intervenção imediata, geralmente pedem uma avaliação cuidadosa sobre a viabilidade do formato remoto e, muitas vezes, um encaminhamento para acompanhamento presencial ou multiprofissional.


Transferência: ela acontece mesmo sem estar na mesma sala?



A resposta, pela minha experiência e pelo que a literatura psicanalítica contemporânea vem discutindo, é sim. A transferência se estabelece na tela também.


A transferência não é um fenômeno que depende da proximidade física dos corpos. Ela é um fenômeno psíquico, ligado à repetição de vínculos infantis na relação com quem ocupa o lugar de analista. Pacientes desenvolvem idealizações, resistências, amor e ódio transferencial pela tela da mesma forma que desenvolveriam no divã.


O que muda é a textura desse encontro, não a sua possibilidade.


Alguns pacientes, inclusive, relatam se sentir mais à vontade para falar de temas difíceis justamente por estarem em seu próprio espaço, com uma sensação de proteção que o ambiente familiar oferece. Para outros, o encontro presencial é insubstituível, e é papel do analista ajudar o paciente a reconhecer o que funciona melhor para ele.


Quando a terapia online funciona bem


Na minha experiência clínica, a terapia online tende a ter bons resultados quando:


  • O paciente consegue garantir um espaço de privacidade real durante as sessões, sem interrupções e sem risco de ser ouvido.


  • Existe uma conexão de internet estável, que não fragmente a comunicação repetidamente.


  • O quadro clínico não exige intervenção presencial imediata.


  • Paciente e analista constroem juntos um enquadre claro, definindo dias, horários, formas de contato entre sessões e o que fazer em situações de crise.


  • Há disponibilidade, de ambas as partes, para nomear as dificuldades específicas do formato quando elas aparecem. Porque elas aparecem, e faz parte do processo analisá-las também.


Quando vale considerar o presencial


Não seria honesto, da minha parte, vender a terapia online como solução universal.


Há situações em que o presencial ainda é a escolha mais indicada: quadros de maior gravidade, pacientes em fase de descompensação psíquica, crianças pequenas, cujo trabalho analítico costuma depender fortemente do brincar e do espaço físico, e casos em que o próprio paciente não consegue, por motivos diversos, garantir um mínimo de privacidade em casa.


Conclusão: o que realmente garante resultado


A pergunta "terapia online funciona?" carrega, por trás dela, uma questão mais antiga e mais importante: o que faz uma análise funcionar, de fato?


A resposta, seja na tela ou no divã, é sempre a mesma: um enquadre consistente, um analista disponível para escutar sem pressa de interpretar e um paciente disposto a atravessar suas próprias resistências.


A tecnologia é o meio. O trabalho psíquico continua sendo o mesmo trabalho de sempre.


Se você está considerando iniciar um processo analítico online, o mais importante não é a modalidade em si, mas encontrar um profissional com quem você sinta que pode, aos poucos, construir confiança e estar disposto a atravessar, junto com ele, o que for necessário.



 
 
 

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Atenção: Se você estiver em crise, com ideação ou planejamento suicida, ligue para o Centro de Valorização da Vida - CVV (188). Em caso de emergência, procure o hospital mais próximo. Havendo risco de morte, ligue imediatamente para o SAMU (192), ou para o Corpo de Bombeiros (193).

 

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