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Preciso saber o que e dizer na terapia?

Foto do escritor: Graziela Barbosa
Graziela Barbosa
1 de out.
3 min de leitura

Atualizado: 5 de out.


A resposta curta: não, você não precisa de um roteiro


Diferente do que a imaginação popular às vezes sugere, baseada em filmes e séries onde o paciente chega com uma "pauta" organizada, a terapia de orientação psicanalítica não funciona assim. Você não precisa preparar um assunto, não precisa "render" a sessão, não precisa ter uma crise para justificar estar ali.


Na verdade, um dos pilares técnicos da psicanálise é exatamente o oposto disso: a associação livre.


O que é associação livre e por que ela é tão importante?


A associação livre é uma técnica (e também uma regra fundamental) criada por Freud, que consiste em convidar o paciente a falar tudo o que vier à mente, sem filtro, sem se preocupar se aquilo "faz sentido", "é relevante" ou "está bem organizado".


Pode ser um sonho da noite anterior, uma lembrança aleatória, uma sensação física, um comentário de alguém no trabalho, um silêncio incômodo, ou até "não sei o que dizer hoje".


E aqui está o ponto mais importante: "não sei o que dizer" também é material de análise.


Muitas vezes, é justamente nesse tipo de bloqueio, de branco, de silêncio, que aparecem os conteúdos mais significativos, resistências, defesas psíquicas, coisas que o inconsciente está, ao mesmo tempo, tentando dizer e evitar dizer.


Por que a mente tenta "controlar" o que será dito?


É comum a pessoa chegar em terapia com a expectativa de ser "organizada", "coerente", de "aproveitar bem o tempo".


Isso, na verdade, é um mecanismo de defesa: uma tentativa do ego de manter controle sobre o que será revelado, evitando o desconforto de se deparar com conteúdos inconscientes que fogem do controle racional.


O processo terapêutico psicanalítico trabalha justamente para afrouxar esse controle.


Quanto mais a pessoa tenta "acertar" o que vai falar, mais ela filtra, elabora racionalmente, e menos espaço dá para que o inconsciente se manifeste espontaneamente, nos lapsos, nas associações inesperadas, nas repetições, nos temas que insistem em voltar mesmo sem querer.


Então, na prática, como funciona uma sessão?


Cada terapeuta tem seu estilo, mas de forma geral, uma sessão de orientação psicanalítica costuma funcionar assim:


Você chega e fala o que estiver presente naquele momento, pode ser algo que aconteceu na semana, um sentimento, uma dúvida, ou simplesmente silêncio no início.


O terapeuta escuta de forma ativa, prestando atenção não só ao conteúdo manifesto, o que está sendo dito literalmente, mas também ao que está nas entrelinhas, tom de voz, repetições, contradições, o que é evitado.


Ao longo do processo, o terapeuta pode fazer intervenções: perguntas, pontuações, interpretações, sempre no timing adequado, para ajudar você a elaborar aquilo que trouxe.

Não há certo ou errado no que se fala.


Não existe "desperdiçar" a sessão falando sobre algo aparentemente banal, muitas vezes é justamente ali que mora o mais importante.


E se eu ficar em silêncio?


O silêncio também é comunicação. Em psicanálise, o silêncio pode expressar resistência, elaboração interna, desconforto, ou simplesmente um momento de processar algo profundamente.


Dicas práticas para quem tem ansiedade

antes das sessões


Ainda que a ideia central seja "não existe roteiro certo", entendo que, principalmente no início do processo, pode ser difícil se soltar completamente.


Algumas coisas que costumam ajudar:


Não tente "preparar" a sessão com antecedência. Se algo importante aconteceu na semana, ele vai aparecer naturalmente.


Permita-se falar sobre o próprio processo terapêutico.


Dizer "estou nervoso, não sei o que falar hoje" já é, em si, um ótimo ponto de partida.


A terapia não é uma avaliação de desempenho.


Dê tempo ao vínculo. É natural que, nas primeiras sessões, exista mais insegurança. Isso tende a se dissolver conforme a confiança na relação terapêutica se constrói.


O papel do terapeuta nesse processo


Um erro comum é achar que cabe ao paciente "conduzir" a sessão sozinho, como se estivesse em uma entrevista de emprego.


Na realidade, conduzir o processo é uma responsabilidade compartilhada: o terapeuta está ali, ativamente, para escutar, articular, e por vezes até abrir caminhos através de perguntas ou observações, quando percebe que isso pode ser útil.


Terapia psicanalítica exige “saber falar bem”?


Não. A psicanálise não avalia articulação verbal ou organização de pensamento. Pelo contrário, valoriza justamente o que escapa a esse controle racional.


Você não precisa chegar pronta para a terapia


Se o medo de “não saber o que dizer” está te afastando de começar um processo terapêutico, saiba que esse é, na verdade, um dos primeiros temas que podem ser trabalhados desde a primeira sessão.


Sobre a autora


Graziela Barbosa Terra é psicóloga (CRP 07/44514), especializanda em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica pelo IEPP – Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicologia. Atende presencialmente em Gravataí (RS) e online para todo o Brasil.


📷 Instagram: @psi.grazielabarbosa

🌐 Site e agendamento: psicologagrazielabarbosa.com

 
 
 

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